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8 de fev. de 2011

A militância brasileira no Egito. Carlos Latuff fala ao UK

Foi preciso tomar as ruas com centenas de milhares de manifestantes para que uma ditadura – que já dura 30 anos – chamasse a atenção do noticiário internacional. Uma revolta que custou cerca de 300 vidas, além dos milhares de feridos. Assim como no mundo todo, os brasileiros se mostram perplexos com tamanha violência, que só agora se tornou aparente. Um brasileiro, em particular, chegou a ter uma pequena participação nesse processo, mesmo a quilômetros e quilômetros de distância. No meio dos cartazes de protestos, egípcios ergueram charges do cartunista carioca Carlos Latuff, exigindo a saída do ainda presidente Hosni Mubarak. Aqui no Brasil, ele questiona programas federais, tem charges que fazem críticas ao governo Lula e se diz apartidário. Mas, nas eleições de 2010, seus desenhos fizeram uma verdadeira campanha a favor da petista Dilma Rousseff. Ele topou falar com o Underkrew, se liga:




Underkrew - Quando você começou a usar a charge como uma forma de "militância"?
Carlos Latuff - Desde que assisti a um documentário sobre os Zapatistas nos idos de 1996. Daí achei que poderia produzir arte que pudesse ser utilizada tanto por eles quanto suas bases de apoio mundo afora.

UK - Sei que você é de origem libanesa, mas há algo a mais que une o brasileiro Carlos Latuff às causas do Egito e de outros países do Oriente Médio?
CL - Muita gente acredita que meu apoio à causa palestina e aos povos do Oriente Médio se dá por conta do fato de minha origem libanesa (meu avô por parte de mãe). Mas isso nada tem a ver. Não preciso ser negro pra combater o racismo ou mulher pra apoiar a causa feminista. Minha atenção especial aos árabes se deu por conta de uma viagem que fiz à Palestina em 1999, mas coloco meu trabalho à disposição de qualquer luta justa em qualquer parte do planeta.

UK - Como você se mantém informado dos acontecimentos no Egito? Você tem algum contato com os movimentos e/ou partidos no Egito?
CL - Graças às redes sociais é possível saber minuto a minuto o que se passa no Egito. Não tenho contato com partidos naquele país.



UK - Temos acompanhado a forte censura do governo sobre as mídias, a internet, etc. Na sua comunicação com ativistas do Egito e envio de charges você chegou a sofrer ou perceber algum tipo de bloqueio?
CL - Bem, TODA a Internet no Egito foi cortada. A sorte foi que os ativistas me solicitaram charges dois dias antes do início dos protestos do dia 25 de janeiro. Deu pra enviar várias imagens antes que o regime Mubarak cortasse definitivamente a comunicação via Internet.

UK - Tem alguma charge sua que tenha tido uma repercussão excepcional (em relação às demais) nessas manifestações?
CL - A que traz um sapato sendo atirado na cara do Mubarak parece que teve mais apelo popular, visto que para os muçulmanos, o simples ato de mostrar a sola do sapato já é uma ofensa, quanto mais atirá-lo em alguém. Veja o exemplo do Muntazir no Iraque, que tacou um sapato no Bush.

UK - Você acredita que as charges podem ser uma ferramenta de luta? Por que?
CL - Porque conseguem expressar de maneira simples temas complexos. Consegue quebrar a barreira do idioma e comunicar-se com gente de diferentes culturas.

UK - Aqui no Brasil você é solidário com quais movimentos e/ou partidos?
CL - Sem-terra, sem-teto, movimento estudantil, sindical, mas não me ligo em partidos.

UK - Como você vê a política atual no Brasil? O governo Lula e agora a Dilma...?
CL - Cara, a política no Brasil é tão medíocre que nem vale a pena comentar, sabe...



UK - Você acredita que, diferente do Egito, o Brasil esteja vivendo uma democracia?
CL - O povo egípcio se rebelou contra uma tirania de 30 anos. O Brasil não tem motivos pra isso. Vivemos numa democracia consolidada, com instituições fortes e saudáveis, onde os pobres tem crédito consignado, conseguem comprar um carro em até 300 vezes, tem bolsa isso, bolsa aquilo, temos uma imprensa livre onde você pode escolher entre assistir Big Brother ou Datena, temos dengue, malária, leishmaniose, mas em compensação vamos sediar Copa e Olimpíadas. Vivemos no mundo perfeito, pra que se rebelar, né?

UK – Mas essa indignação é mesmo uma coisa rara de se ver entre os artistas contemporâneos. O que você acha da omissão da classe artística hoje no Brasil
CL - A GRANDE maioria dos artistas está impregnada pelo chamado "pós-modernismo", sentem-se acima do bem e do mal, da esquerda ou da direita, e por isso não se sentem obrigados a participar das lutas populares. Aliás, tenho até minhas dúvidas se eles sabem o que é luta popular...


Twitter do Latuff

DeviantArt com mais charges

Leia o que já foi postado sobre o Latuff no UK

10 de nov. de 2010

Carlos Latuff


Carlos Latuff é um cartunista brasileiro que iniciou seus trabalhos em 1989 no Rio de Janeiro. Apesar de começar como ilustrador em uma pequena agência, só se tornou cartunista em 1990, com uma publicação no boletim do sindicato dos estivadores, sendo que até hoje realiza charges pra a imprensa sindical.

Com a popularização da internet, Latuff começou a fazer charges de caráter ativista, sem perder a arte original de seus desenhos, produzindo obras para o movimento Zapista, inspirado na luta do mexicano Emiliano Zapata, um importante líder da revolução Mexicana de 1910.

Vou fazer uma pausa para explicar: Os zapistas lutavam contra o NAFTA (Acordo de livre comércio entre México, E.U.A. e Canadá) e pregavam a democracia no território com a participação direta da população. No dia 1 de Janeiro de 1994, os Zapistas tiveram maior visibilidade quando apareceram além das montanhas de Chiapas de capuzes pretos e armas na mão dizendo YA BASTA!

Voltando: Em 1999, Latuff faz uma viajem até Cisjordânia, onde vira simpatizante da causa Palestina, que sofre com confrontos armados desde 1920, numa disputa territorial. Devido à ajuda de outros países mais desenvolvidos à Israel, o Estado judeu, em uma aliança secreta com estes países, começa a invadir as terras Palestinas, onde criariam seu estado religioso e até hoje se mantém lá. Boa parte do trabalho de Latuff tem como foco essa luta, muitas vezes com críticas pesadas à ONU, aos E.U.A. e outros países, como a Grã-Bretanha, que financiaram de forma direta e indireta o conflito.
Latuff tem seus desenhos espalhados por todo o mundo, sendo o primeiro brasileiro a ter um trabalho publicado em um concurso de charges sobre o Holocausto, promovido pela Casa da Caricatura do Irã. O desenho mostra um palestino chorando em frente a um muro, vestindo um uniforme de prisioneiro de campo de concentração.



Latuff também faz críticas ao Papa, à polícia brasileira e até ao queridinho Barack Obama, devido às suspeitas de as ameaças feitas pelo secretário de imprensa do Pentágono Geoff Morrell, que diz que não descartar a opção de um ataque ao Irã devido a acusão do Irã desenvolver um programa nuclear com fins militares, porém o Terãã (Capital e principal província Islâmica do Irã) diz que o programa tem finalidade pacifica e se recusa a negociar. Na verdade o Irã diz que só quer fazer bombas nucleares para assustar seus inimigos que no governo de Bush foi ameaçado de ser o próximo a ser atacado, além de Israel que também não nega ter bomba nucleares mas não confirma, enquanto Índia e Paquistão outros inimigos iniciam uma corrida armamentista. Contudo só existem indícios de existir realmente esse programa no Irã, como no Iraque, onde os E.U.A. estava enganado. O Irã preocupado com possíveis ataques pode estar blefando pra ameaçar esses países.